“Quem sabe você tropeça em mim.”

Tiê  
“A gente só vive uma vez, você tem certeza que você é aquilo que gostaria de ser?”

Gabito Nunes.  
“Ventava, fazia barulho, chovia forte, o céu estava nublado. E o pior é que a tempestade não era lá fora. Era dentro de mim.”

Renato Russo. 

Frio

Acho que me acostumei a ouvir sua voz antes de dormir. Sua boca tocando minha orelha era um calmante natural que eu me viciei, agora o sono não vem. A única coisa que eu sinto no momento é frio. Frio e fome de você. Faminto e gelado. Chega a ser engraçado depois de tanta aflição ao deitar e não pegar no sono. Fico olhando para o teto tentando me aquecer sem teu corpo pra colar no meu, sem os teus cabelos pra perfumar o travesseiro. Alias, já tentei me lembrar do seu perfume e não consegui. O tempo já levou seu cheiro de mim.

Antes eu pedia a Deus pra te trazer em sonho, hoje eu vejo o quanto isso tem me feito mal. Acordar toda manhã e perceber que tudo foi apenas uma ilusão que desapareceu no momento do abrir os olhos. Desejava permanecer em sonhos a vida inteira, já que na cair na realidade era uma penitência. Eu perdia você a cada amanhecer, depois de noites cada vez mais curtas. Passei a pedir pra te ignorar, evitar, esquecer. Não adiantou muito, ainda durmo pouco ou quase nada.

Observo o relógio passar das duas. Me levanto nesse frio, me enrolo na coberta, caminho até a cozinha, esquento e bebo um copo de leite sentado num dos banquinhos de madeira. Observava o céu nublado colorido de rosa, como se os céus quisessem desabar em choro. Seu nome se repetia na minha cabeça em tom baixo, quase um sussurro, ninguém alem de mim conseguia lhe ouvir, mas eu não queria. Levantei do banquinho com o copo de leite já frio, meio pela metade, ainda enrolado na coberta e andei em direção à sala. Sento na poltrona, mas hesitei ao ligar a televisão. Me lembrei que você pedia pra mim esquecer a TV e olhar pra você enquanto falava sobre seu  dia. Por incrível que pareça, hoje eu resolvi te obedecer. A vontade de beber o leite passou, encostei o copo no pé da poltrona e fiquei sentado olhando para o lugar do sofá onde você gostava de ficar. Era exatamente no lado direito, com a cabeça encostada na cabeceira, virada pra mim. Bem, era.

Comecei a me queixar da vida, praguejar pessoas, culpar a Deus, lamentar. O sono não veio. Só fiquei ainda mais agitado, aflito, magoado. Imaginei uma vida horrível para você. Quase pude desejar um destino seco e sem graça sem mim para deleitar seus dias. Me coloquei como seu ponto de equilíbrio, seu porto seguro. Sorri esboçando um deboche da situação. “Tomara que você esteja pior que eu”.

Resolvi voltar para a cama. Derrubei o leite. “Merda”. Busquei algo para limpar a sujeira que criei e a melancolia veio. Sentei no chão, encostei a cabeça na parede, respirei fundo e segurei o choro. O nó na garganta apertou a ponto de não suportar mais, mas suportei. Um raio iluminou a sala escura e um vento balançou a roseira do quintal. Uma chuva começou a cair e engrossava rapidamente. “Quem deveria chorar era eu”. Me levantei devagar e caminhei para o quarto ouvindo o som da chuva. O frio só aumentou e eu continuei sozinho. Olhei em direção ao relógio que marcava três e meia. Deitei e procurei esvaziar a mente. Não pensava em mais nada, nem ninguém. Você, o leite, a chuva, o frio, o medo, todos sumiram por alguns instantes. Apertei o travesseiro e procurei, enfim, dormir.

O despertador me acordou. Abri o olho e lamentei mais uma vez. Uma lágrima escapou de meus olhos exaustos. Era você que me fez flutuar mais uma noite e me tirou o chão, antes de desaparecer. Não pude evitar o desespero e a tristeza. Ainda sinto frio. Pior, sinto sua falta.

“Finjo que não me importo, finjo que não to bêbado, finjo que to trabalhando, finjo que te esqueci.. Tô por aí, fingindo.”

Soulstripper 
“Comprei um snorkel e óculos de mergulho
Estou cansada de nadar na superfície
Preciso ver o que há sobre a pele cor de rosa
Preciso ver o que se esconde por debaixo da tua iris
Amanhã bem cedo vou sair pra mergulhar
E quem sabe bem lá no fundo do oceano
Eu descubra teus segredos e receios
E te traga definitivamente pra mim.”

Elisa Bartlett.  

poesia de ponto de ônibus em 15 minutos bizarros

eu sei que é muito bizarro
e patético
mas é só
o meu eu-poético. 

que escreve quando espera o ônibus
e quando chora nos cantos
que odeia vírgulas
e conta os pontos..

que nunca esquece o passado, deixa de viver o presente e não pensa no futuro.

só mais uma desordem
de alguém
ou ninguém.

.ácido

“Ela fala do seu dia
fazendo poesia.
Conta os sonhos,
pesadelos e passos;
dos problemas,
e dos embaraços.
Tudo numa enorme poesia.
Sonha, sonha, sonha;
planeja e raramente,
quase nunca,
pestaneja.
Peralta até demais,
mas peraltices à parte,
alegria não lhe falta!
Menina nova,
ainda está nos quinte,
mas traz sonhos
como quem coleciona dos os três
aos vinte.
Fernando Pessoa sentiria inveja,
pois dizia:
“Trago em mim
todos os sonhos do mundo.”
Já ela, Pessoa, ela te diria:
“Trago em mim
todos os sonhos do mundo:
Os seus, os meus,
os sonhos que eu sempre quis.
Sou guardadora de sonhos,
e sonhando assim
eu me sinto feliz.””